A intenção deste artigo não é
catequizar os leitores, nem sugerir que esta é a saída ideal para todos, mas
oferecer mais informação para que as pessoas possam pensar e analisar
alternativas com menos preconceito.
Não estou, aqui, fazendo apologia
do uso da castração como um método indiscriminado e milagroso para resolver
problemas comportamentais em cães. Apenas peço que vocês leiam este artigo
com interesse e com a mente aberta. Quanto a mim, prometo que vou tentar
fazer este artigo o mais simpático, divertido, instrutivo e agradável
possível.
A castração ainda é um grande tabu, uma
prática que as pessoas ainda vêem como uma mera mutilação e injustiça com os
cães. Poucas pessoas sabem que a castração pode ser um meio de ajuda
nos problemas comportamentais dos nossos companheiros peludos, e que
não é só um meio de evitar filhotes numa casa onde existam machos e fêmeas
vivendo juntos.
Quando eu atendo clientes com problemas
de briga entre cães que moram na mesma casa, ou cães que são extremamente
possessivos, ou dominantes, ou que marcam o território "deles" (leia-se a casa
do dono) com pocinhas e mais pocinhas de xixi, e que, por estas e por outras,
estes cães já estão com seus dias contados, procuro sempre desenvolver um
programa de mudança comportamental que seja ao mesmo tempo eficaz e pouco
estressante para dono e cão. Também nestas ocasiões, procuro passar todo tipo
de informação que possa ajudar esta dupla a conviver melhor e superar estes
obstáculos. Muitas vezes a castração é trazida como uma alternativa (as vezes
a última esperança), e é aí que começam os problemas de ordem
física/emocional.
Claro que eu, como membro da comunidade
latina, entendo perfeitamente que este seja um assunto delicado. Especialmente
quando falamos na castração de machos. Talvez por um problema
cultural, é sempre melhor aceita a castração ou esterilização de fêmeas (mesmo
que humanas), do que de machos. Mesmo que, segundo os veterinários, a
esterilização nos machos caninos seja menos traumática, de recuperação mais
rápida, mais barata, e menos arriscada.
Mas vamos voltar aos aspectos
comportamentais dos caninos que é o nos interessa no momento. Primeiro, para a
gente tirar da frente logo os aspectos técnicos da castração, vamos a algumas
informações.
Segundo os veterinários, existem
pelo menos duas técnicas mais usadas para a remoção dos testículos do
macho. Uma é feita através de uma incisão na bolsa escrotal
(saquinho) do cão e outra através duas pequenas incisões na base do pênis. No
caso da fêmea a cirurgia é feita por uma incisão na barriguinha, onde o útero
e os ovários são removidos. Nestas cirurgias é usada a anestesia geral e a
maioria dos veterinários orienta seus clientes para que o cachorro tenha no
mínimo entre 5 e 6 meses de idade, embora já exista nos Estados Unidos alguns
veterinários que operam filhotinhos com 7 ou 8 semanas de vida. A instituição
líder neste tipo de procedimento é a Massachusetts Societ for Prevention of
Cruelty To Animals do Angell Memorial Animal Hospital de Boston. Como toda
cirurgia, principalmente por envolver anestesia geral, existe um certo risco,
mas de um modo em geral é considerada bastante segura. A recuperação tende a
ser muito rápida.
A castração não deve ser usada como o
único recurso para corrigir problemas de temperamento e de maus hábitos do
cachorro, mas junto com um programa de mudança comportamental, ela pode ser
uma ajuda valiosa e definitiva.
Em que casos a
castração é aconselhada?
No caso de fêmeas são
especialmente indicadas nos casos de agressão por proteção/possessividade e
para cadelas que fogem.
No caso de cadelas que
brigam entre si por dominância, existe um estudo que diz que a castração antes
dos 2 anos de idade pode piorar a situação em cerca de 50% dos casos. Isto
porque a falta de estrogênio deixaria de compensar o equilíbrio em fêmeas que
foram "masculinizadas" durante a gestação (segundo uma teoria defendida por
John Fisher - treinador e comportamentalista inglês, reconhecido
internacionalmente - a masculinização de uma fêmea ocorre quando ela é gerada
entre dois machos, ainda na barriga da mãe). As fêmeas "masculinizadas" são
aquelas que levantam a patinha para fazer xixi, montam em outros cães e
pessoas, e apresentam uma dominância exacerbada entre outros comportamentos
atípicos.
Quanto a parte da saúde física não
podemos deixar de mencionar que fêmeas castradas antes de atingir a
puberdade tem o risco de desenvolver câncer de mama reduzido a praticamente
zero e ficam totalmente livres dos riscos de contrair câncer e infecção de
útero e ovário. Também estudos sugerem que o problema com gravidez
psicológica diminuem consideravelmente.
No caso dos machos parece que a castração tem um campo de
benefícios ainda maior (desculpem rapazes!). Num estudo conduzido pela
Veterinary Medical Teaching Hospital of the University of California e pela
Small Animal Clinic of Michigan State University, sugere que a
castração em cães machos pode ajudar significantemente em comportamentos
indesejados, como: fugir, agressão contra outros machos, marcação de
território com urina, e montar em outros animais e
pessoas.
O estudo avalia ainda se a mudança no
comportamento foi rápida (mudanças evidentes até 2 semanas após a cirurgia) ou
gradual (mudanças em aproximadamente 6 meses após a cirurgia).
Embora este estudo não deva ser
considerado como sendo uma representação completa e acurada das percentagens
de mudança de comportamento, ele serve, sem dúvida nenhuma, como um guia para
avaliação das chances de sucesso nesta operação.
Fazendo um resumo dos casos de castração
em machos estudados a gente tem os seguintes resultados:
Problema comportamental |
Casos Resolvidos |
Mudança Rápida |
Mudança Gradual |
| Fugir |
94% |
47% |
53% |
| Montar |
67% |
50% |
50% |
| Marcação de
Território |
50% |
60% |
40% |
| Agressão contra
Machos |
63% |
60% |
40% |
Foram estudados ainda os efeitos da
castração na redução da AGRESSÃO/DEFESA TERRITORIAL e também na redução da
AGRESSÃO POR MEDO, mas em ambos os casos não houve qualquer mudança nos
cachorros. Ou seja, a castração NÃO interfere com o instinto de guarda
do cão, tampouco o torna menos medroso.
Também NÃO ficou provado que a
castração torne os cães letárgicos, embora alguns donos tenham notado
que seus cachorros se tornaram mais calmos e mais carinhosos de um modo em
geral. Vale lembrar que existem diversas causas para um cachorro ser agressivo
e a castração não vai influenciar em todos os casos. Além disso, a
testosterona (hormônio masculino) não causa por si só a agressão, mas ajuda a
"alimentá-la" e a mante-la. É sempre importante entender as causas do
comportamento agressivo de um cão e sempre estabelecer um programa de
treinamento e mudança comportamental para tentar solucionar o
problema.
Veterinários também aconselham que
sempre que houver uma piora em relação a agressividade, depois da castração, é
preciso checar outras possíveis causas de desequilíbrio hormonal, como por
exemplo, hipotiroidismo.
Embora não exista uma idade ideal para a castração, é
normalmente aceito que a castração antes da puberdade (até 8 meses de idade)
ajuda a maioria dos cães a não desenvolver hábitos que demorariam muito a
serem corrigidos, mesmo depois do cão ter sido castrado. Além disso,
cães castrados antes da puberdade tendem a ficar mais brincalhões e mais
suaves nas suas brincadeiras, sendo inclusive melhor aceitos por outros cães,
tendem a engordar muito menos depois da cirurgia, e, no caso das fêmeas, a
castração antes do primeiro cio é muito mais efetiva na prevenção do câncer de
mama. Já para quem quer ter um cachorro de trabalho, por exemplo para caça e
pastoreio, o melhor seria esperar até que o cão tenha atingido a sua
maturidade emocional (por volta dos 2 anos de idade) para que os seus
instintos naturais se firmem melhor.
Para aqueles que querem
participar de competições de conformação e beleza a castração não é uma
alternativa, já que cães castrados não podem participar dos shows.
Para aqueles que estão preocupados com o fato de que cães castrados tendem a
ficar mais gordinhos, saibam que basta manter uma rotina diária de exercícios
e reduzir de 10% a 20% as calorias de sua dieta.
Em compensação existem algum mitos sobre
cachorros intactos que devemos esclarecer.
Cães machos não ficam mais
estáveis emocionalmente só porque cruzaram. O mesmo pode ser dito para as
fêmeas. Muitas pessoas acreditam que suas cadelas ficaram mais calmas
e responsáveis depois que tiveram a sua primeira ninhada, mas o que acontece
na verdade é que a maioria das cadelas cruza no segundo ou terceiro cio (entre
1 ano e meio e dois anos), época em que ela está naturalmente atingindo a sua
maturidade emocional.
Para ilustrar casos de sucesso com a
castração dos peludos, ai vão algumas histórias reais.
Uma grande amiga minha possui 6 cachorros de raça grande. Três
machos (um Labrador, um Rhodesiano e um Bouvier de Flandres) e três fêmeas
(duas Bouvier de Flandres e uma Rhodesiana). Quando o machinho Bouvier começou
a chegar na puberdade (com cerca de 8 meses de idade), os problemas de briga
entre os machos começaram a acontecer. O Leão da Rhodesia, que é extremamente
disciplinado e submisso dentro da sua matilha (embora ele seja o melhor cão de
guarda da turma e o mais agressivo com cães estranhos que invadam seu
território) passou a ser sistematicamente atacado pelo Bouvier, toda vez que o
Labrador (líder da matilha) tentava evitar que o Rhodesiano se aproximasse da
dona. Era só o Labrador segurar o Rhodesiano (gentilmente é verdade), que o
Bouvier vinha com grande agressividade e passava a mordê-lo nas coxas
traseiras. Muitas brigas e pontos depois a dona finalmente desistiu de deixar
que eles aprendessem a se comportar bem e levou todo mundo para castrar. Três
semanas depois da cirurgia já se notava uma mudança significativa no
comportamento dos machos que nunca mais brigaram e estão muito mais
tranqüilos. Ah! e ninguém ficou ridicularizando ninguém ou desconfiando da
masculinidade do Cãopanheiro :-). Na verdade a mudança no comportamento
indesejado deles foi tão expressiva que minha amiga resolveu que vai castrar
também as fêmeas (que já estão começando a se olhar meio atravessadas), além
do que vai evitar que os cachorrinhos da vizinhança sejam deglutidos pelos
cães da casa, pois os intrusos não conseguem se controlar quando as meninas
entram no cio.
Um outro caso interessante é o da minha cunhada. Ela tem um Poodle
macho de 6 anos que há 4 anos vem tentado matar o meu irmão. Fizemos um
programa intenso de recondicionamento do bichinho, mas eles não conseguiram
levar
adiante. Finalmente, depois de 2 anos perturbando a minha cunhada,
ela resolveu considerar a castração do filhotinho de diabo da tasmânia. Já faz
6 meses que ele foi castrado. A relação com o meu irmão melhorou muito, embora
continue, digamos, delicada, mas com as pessoas em geral ele melhorou 200%.
Antes da cirurgia ele não podia nem sequer ser acariciado. Sempre rosnava e
tentava morder qualquer um que tentasse chegar perto da dona. Hoje ele está
tão mais relaxado e feliz que não precisa mais ficar sozinho e trancado no
apartamento quando a família sai para passear. Agora ele já pode ir aos
passeios e é muito bem-vindo na minha casa. Nunca mais aconteceram brigas
entre ele e o meu cachorro. A vida deste cachorro já mudou tanto que tenho
certeza que todo o ambiente a volta dele irá ajudar a mudar o que resta de
dominância, disputa, e desconfiança com os humanos e machos em
geral.
E pra não dizer que a gente não toma do
próprio remédio, devo informar que também já estamos preparando o nosso
cachorro. Isso mesmo o próprio Bife já está na fila de espera para uma
castração. Por que nós vamos castrar o Bife? Porque não vejo nenhum motivo
razoável para mantê-lo intacto. Nós não pretendemos cruzá-lo. Além de ser
muito
difícil achar uma fêmea da mesma raça que ele, não vejo motivos para
satisfazer meu ego com uma ninhada do meu filho macho pródigo e nem aconselho
que a maioria dos mortais possua um Jack Russell Terrier. Eu sei muito bem a
encrenca que é. Não existe nenhuma contra-indicação médica quanto a
castração e na verdade ele só irá se beneficiar deixando de correr riscos de
contrair câncer nos testículos e na próstata. Além disso tenho
esperanças de que ele faça parte dos 63% de cães que deixam de ser agressivos
com outros machos. Hoje esta é uma condição que limita bastante a interação do
Bife com outros cães e tenho certeza de que ele vai adorar brincar com outros
amigos se deixar de vê-los como competidores e inimigos em
potencial.
O único motivo para não termos ainda
feito a cirurgia é que estamos tentando encontrar uma prótese de silicone para
colocar no lugar das bolinhas originais. Isso mesmo, para aqueles donos que,
como o meu marido, acham que
dói na própria pele olhar um cachorro macho
sem o saquinho, já existem no mercado próteses de silicone (que não vazam como
os famosos peitões de silicone usados pelas fêmeas humanas, especialmente da
série SOS Malibu :-D) que podem ser colocadas e mantém a aparência natural dos
caninos. Tudo pelos humanos, já que os cães não dão a mínima para estes
conceitos estéticos.
E pra finalizar, lembramos que a melhor
pessoa, sempre, para tirar as suas dúvidas, deixá-lo tranqüilo e confiante, e
para cuidar do seu animalzinho é, sem dúvida nenhuma, o seu veterinário de
confiança. Portanto, não deixe
nunca de conversar com ele antes de tomar
uma decisão quanto a castrar ou não o seu animal, quais os riscos envolvidos e
qual a melhor época para fazê-lo.

E não podemos deixar de pensar um
pouquinho na super população dos cães, especialmente nos de rua, que vivem em
condições absolutamente indignas. Muito obrigada a todos os veterinários que
dedicam parte do seu dinheiro e muito do seu tempo e carinho para castrar
aimais de rua abandonados e que não cobram nada por isso.
Algumas fontes utilizadas como
consulta:
- Behavior Problems in Dogs - William E.
Camplbell
- Dog Psychology - Leon F.
Whitney,
D.V.M.
- The Dog's Mind - Bruce
Fogle, D.V.M.,
M.R.C.V.S.
- Castration of Adult Male
Dogs: Effects on Roaming, Aggression, Urine Marking , and Mouting - Sharon G.
Hopkins,
D.V.M.; Thomas A. Schubert, B.S.;Benjamin L. Hart, D.V.M., Phd.
- The Ethics and responsibilities of Spaing
and Neutering - John Cargill, M.A., M.B.A.,M.S.; Susan Thorpe-Vargas, M.S.,
Phd.
- Pyometra Puts Intact Females at Risk -
John Cargill, M.A., M.B.A., M.S.
- Dog Fancy jul/96;
ago/96
- Dog World nov/95
Cláudia Pizzolatto
Lord Cão -
Treinamento de Cães Ltda.
http://www.lordcao.com/