Nem os bichos escapam

Carinho demais, espaços minúsculos e solidão podem fazer muito mal a quem nasce sem o dom natural de falar a linguagem dos homens.

Rosangela Rezende

Não há diferença entre animais racionais e irracionais quando o assunto é estresse. Bichos e homens apresentam reações iguais diante de situações de tensão.

Cavalos estressados praticam a aerofagia ( engolem ar ) e acabam com gastrite. Se não estão bem, animais de cativeiro- os de zoológico são o melhor exemplo- podem parar de comer, emagrecer. Cães e gatos têm coceira, diarréia, vomito, queda de pelo ou dores de ouvido.

E nos somos os responsáveis por todo este sofrimento..

"O bicho fica a mercê do que projetamos para ele", aponta a veterinária e psicóloga Hannelore Fuchs, especialista em comportamento animal. Só que nem sempre oferecemos é o que ele precisa. Quem brinca de boneca com seu cachorro, enchendo-o de roupas e deixando-o todo o tempo no colo, sufoca-o com excesso de carinho.

Erra também quem mantém o animal sempre preso ou isolado do convívio humano e de outros iguais a ele.

Quem decide ter um bicho deve saber que sua criação tem de ser o mais próxima possível do que exigem sua espécie e raça. Só assim ele vivera sadio e tranqüilo.

BICHOS DOMESTICOS: Quem mora em apartamento deve refletir muito sobre ter um animal e sobre o seu tamanho. Cães grandes, por exemplo, sofrem em ambientes apertados, onde não podem se movimentar livremente.

Ë o isolamento, porem, o maior fator de estresse para animais de estimação. Eles não suportam ficar sos o tempo todo. Nesse sentido, o caminho é : arranjar quem faça companhia ao animal numa parte do dia (empregada ou familiar que goste do animal e vice-versa), ou desistir da idéia. Muita solidão pode significar depressão, doenças e, dependendo do grau de estresse, ate a morte.

O contrario também é ruim. Bicho mimado e desacostumado à ausência reage mal quando se separa dos donos, mesmo por pouco tempo. A forma como ele é criado é que vai determinar sua reação a situações estressantes.

"Comece cedo a educar o seu bicho para a realidade. Faça-o perceber que tem uma existência separada da do ser humano e que isso não é ruim. Desde pequeno, separe-se dele por pequenos períodos. Assim ele percebe que quem sai, sempre volta e isto o tranqüiliza. Acostume-o a sua casinha, ao seu espaço. Ale ele se sentira seguro e acolhido", orienta Hannelore.

O contato com outras pessoa e animais é outro detalhe importante, pois impede reações agressivas, ou de muita tensão, diante de seres estranhos ao seu cotidiano.

Alem disso, não esqueça de leva-los a passear, de brincar com eles e dar-lhes carinho, itens

Também fundamentais para uma vida saudável.

Em cachorros, o momento ideal para educa-los é dos 2 aos 5 meses, período de socialização que, nos humanos corresponde aos 18 primeiros anos de vida. Nessa etapa, eles devem aprender o que é uma pessoa, um bicho, a dinâmica da casa, dos donos, as relações de dominância e o que mais for necessário.

Alterações repentinas no cotidiano da casa também pedem adaptações graduais. Como aconselha Hannelore, "ou se educa o animal desde pequeno ou ele ficara muito estressado com situações que não fazem parte do seu repertorio".

CATIVOS E ATLETAS: O cativeiro é o grande inimigo dos animais selvagens. Confinados a espaços pequenos, eles correm enormes riscos de se estressarem.

Para minimizar o sofrimento de seus "moradores",a Fundação do Parque Zoológico de São Paulo procura criar ambientes semelhantes aos locais de origem das espécies e oferecer uma alimentação que se assemelhe, ao Maximo, a que lhes é natural.

Nos recintos dos macacos, por exemplo, não faltam pneus, objetos e brinquedos para distrai-los. Como na natureza eles estão acostumados a se pendurar, pular e saltar, podem continuar com essas atividades em cativeiro. Já o leão marinho tem a sua disposição duas piscinas, uma de água salgada e outra doce, para não sentir tanto o impacto do afastamento de seu ambiente de origem.

Outro recurso usado é variar a alimentação, inclusive a maneira de servi-la. Descascar banana é uma atividade que distrai os macacos. Mas se ela for oferecida sem a casca, à forma diferente, também vai entretê-los . Os ambientes ainda têm tocas e arbustos para que eles se escondam quando quiserem. "Na natureza, os animais não estão expostos o tempo todo e a presença constante do publico é cansativa", justifica a veterinária da Fundação, Sandra Helena Ramiro Correa.

Pela característica do confinamento intensivo e do forte treinamento, cavalos atletas (ou de exposição) também costumam ser estressados. Cocheiras limpas, de bom tamanho e bem ventiladas, alimentação de qualidade, água fresca em abundancia, convívio com outros animais da mesma espécie e atividade freqüente diminuem bem o problema.

"O animal espelha o tratamento que recebe", ensina a veterinária da Clinica Azevedo & Montello, Priscila Azevedo, especialista em cavalos atletas. E evitar a ociosidade é um jeito de impedi-los de desenvolver vícios de confinamento. É por falta do que fazer que começam a roer a madeira da cocheira, puxar o ar para engolir...

"Um bom confinamento, com trabalho bem realizado, sem maus tratos e muito carinho, poupa sofrimento ao animal", ensina a veterinária Priscila. Que sugere, ainda, que se limpe a cocheira três vezes por dia, se faça a higiene do animal outras duas, se sirva à alimentação em três ou quatro etapas e se garanta que o cavalo saia da cocheira uma vez para treinar e outra para passear.

QUANDO OS ANIMAIS ESTAO NO LIMITE

Em animais domésticos

-Não querem sair do colo

-coceiras

-medos excessivos

-mordem a sim mesmos ( como os humanos roem ad unhas)

-Latidos, miados (e outros ruídos característicos de outras espécies) excessivos

-dores de ouvido

Em gatos

-faz as necessidades fisiológicas fora do lugar de costume

Em Cavalos

-tic de urso ou mudança de apóio (patas) de um lado para outro

-aerofagia. O animal puxa o ar para dentro e engole

-coprofagia.Come o próprio estrume (também pode ser provocada quando faltam fibras em sua alimentação)

-mordem a si mesmos (isto só ocorre com o garanhão, que não foi castrado)

-mordem os outros, pessoas e animais

-roem madeira(portas, trancas, etc)

Mordem o bridão (peça que fica dentro da boca) durante o treinamento, atrapalhando o controle do cavaleiro

Em todos

-problemas de pelo (queda e perda do brilho)

-falta de apetite e emagrecimento

-queda do sistema imunológico

-gastrites, úlceras e cólicas intestinais

-comportamento agressivo ou destrutivo.

 

Onde Achar:

Hannelore Fuchs (veterinária e psicóloga)

Fone: 3865-2940 e 3865-6534

Priscila Azevedo (veterinaria especialista em cavalos atletas da Clinica Azevedo & Montello)

Fone: 246-6405

Fonte: Suplemento Femenino- Jornal Estado de São Paulo- Pagina F12.

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