Criadores de má-fé podem usar certificado para “esquentar” crias fajutas

O Golpe do pedigree

Se você sempre sonhou em comprar um cachorro de estirpe e, para garantir,   foi até aquele criador famoso, decidiu-se por  um filhote caro e cheio de nomes com­plicados no pedigree, cuidado. Você pode ter com­prado gato por lebre.

“O certificado de pedigree é uma declaração baseada apenas na boa-fé dos criadores”, afirma a presidente do Kenel Clube Pau­lista, Agnes Buchwald. Ou seja, para um criador “certificar” a pu­reza de uma prole, basta procurar o Kenel Clube de sua cidade com o pedigree dos pais e obter a certidão dos filhotes. Mais nada.

Nesse caminho, o criador de má-fé pode “esquentar” uma cria fajuta. “Eu comprei uma labrador preta com pedigree para co­meçar uma criação. O canil foi até indicado pelo Kenel Clube”, afirma a empresária Maria Lúcia Abreu, 41. “Gastei R$ 12 mil durante um ano com alimentação e preparação para competir. Ela até ganhou três prêmios como melhor da raça.”

A fraude apareceu quando Maria Lúcia procurou um macho para procriar com sua labrador. “Os criadores pediram o pe­digree, mas, quando viram que os pais dela eram amarelos, dis­seram que era geneticamente impossível um casal de labra­dores amarelos gerar uma prole preta.”

A saída foi processar o vendedor e pedir exame de DNA para comprovar a fraude. “Ganhei uma indenização, mas isso pouco importa. Meus filhos adoram a cadela e não pensamos em nos desfazer dela por isso.” E as competições? “Ela não participa mais das provas, mas fiquei com uma vira-lata campeã”, brinca.

O criador que vende bicho com pedigree falso pode estar co­metendo crime de estelionato, afirma a advogada especialista em animais Mônica Grimaldi. “O dono pode devolver o animal ou pedir abatimento do preço, como se ele fosse sem pedigree.”

Para Agnes, do Kenel, esses casos são exceção. “O criador não tem interesse em fraudar. Se ele fizer isso, o seu próprio ‘pro­duto’ torna-se desacreditado.” Quem tiver algum problema desse tipo deve informar ao Kenel Clube para que o criador se­ja descredenciado.

E qual a receita para não entrar numa fria? “Desconfie de quem oferecer qualquer animal por menos de R$ 400”, afirma Agnes. Segundo ela, esse seria o custo mínimo do criador para vacinar, vermifurgar e certificar uma prole de qualquer raça.

Outro cuidado deve ser tomado com os criadores que co­bram uma “taxa” extra pelo pedigree. “Os bons criadores já in­cluem esse preço no valor cobrado. Eles nunca vendem sem o certificado. Além disso, vale lembrar que esse valor nunca ésuperior a R$ 50. Se o criador pedir mais, já está dando uma de ‘despachante’, e, às vezes, isso pode indicar que vai trazer um documento falso.”

Quanto à espera do documento, não adianta reclamar. A en­trega efetiva do certificado de pedigree pode demorar até um ano. “Dependendo da raça, temos que mandar a papelada para os EUA.” No caso, o dono fica com um recibo enquanto não chega o documento final.

Nos casos de dúvida sobre a autenticidade do pedigree, a saí­da tem sido o exame de DNA para bichos. “A possibilidade de acerto é de 99,99%”, afirma o veterinário Israel Bleich, 43, que realiza esse tipo de exame por R$ 180.

E não pense que o exame serve apenas para falsificações de pedigree. “Uma vez, uma senhora deixou seu poodle na loja de animais para uma tosa. Quando voltou, não o reconheceu, apesar de éle ficar abanando o rabo. Fizemos o exame e descobrimos que não tinha sido trocado. Ela ficou com aquela cara”, brinca.

 Revista da Folha, 20 de agosto  [por Kiyomori Mori]

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